Quando alguém que não está acima do peso se depara com a palavra “obesidade”, é comum que pense na falta de determinação ou força de vontade para uma mudança radical nos hábitos alimentares do portador desta doença. Sim, uma doença.

 E o que muita gente não sabe é que a cirurgia bariátrica é o caminho mais difícil para quem deseja perder peso, isto porque o procedimento só é realizado no paciente que já tentou o emagrecimento através de diversos métodos e não obteve resultado, como no caso de Saymon Rebeschini, 30.

Com 170 quilos e o alerta de um médico, o empreendedor buscou uma cirurgia bariátrica. “Eu vestia calça 60 e camisetas G5. Encontrar roupas não era uma tarefa fácil, o meu corpo pedia socorro, tive esteatose, pressão alta, os tornozelos e joelhos sofriam com o peso, eu tinha dores insuportáveis na coluna e apneia. Um dia, durante uma avaliação médica de rotina, o médico me disse: ou você emagrece com urgência ou vai ter problemas muito mais sérios em pouco tempo. 

Depois disso Saymon resolveu pesquisar sobre a cirurgia e até marcou uma consulta que demorou meses para acontecer. “O médico me explicou como seria o procedimento, mas eu não sai feliz e sim com mais dúvidas. Fiz alguns exames, mas acabei desistindo”, lembra.

Os dias continuaram com a presença das dores nas pernas, falta de ar e até falar causava cansaço, mas como maioria das pessoas, Saymon precisou de um empurrão para a tomada da decisão – e foi nada agradável.

“Um dia fomos em um bar com um casal de amigos e seus filhos, num momento de descontração minha cadeira quebrou, foi como se eu conseguisse ver tudo em câmera lenta, vi as expressões de cada pessoa das mesas ao lado, vi os olhares dos garçons, o olhar de raiva do dono do lugar pela cadeira quebrada, o desespero de quem estava na minha mesa… Eu levantei, sorri, agi como se nada tivesse acontecido, mas por dentro eu estava como aquela cadeira, despedaçado!”, conta.

E foi isso que o convenceu. Através de uma indicação, conheceu o Dr. Vitor Maia Pires (CRM – 113081/SP), médico especializado em Cirurgia do Aparelho Digestivo, Cirurgia da Obesidade e Videocirurgia. A consulta durou cerca de uma hora e um mês depois, Saymon entrou na sala de cirurgia.

Mas, antes, o paciente passou por uma grande preparação. “O preparo para a cirurgia começa desde o momento que você decide realizar o procedimento Tive três consultas com psicóloga para me preparar emocionalmente para a cirurgia e o pós-operatório. Também tive duas consultas com a nutricionista, que me explicou como seria no dia anterior da cirurgia e como seria minha alimentação nos três meses após”, conta.

O médico cirurgião do aparelho digestivo, Dr. Vitor, explica que o preparo é padrão com todos os pacientes que caminham para este procedimento.

 “Nesta primeira etapa, eu avalio se o paciente tem a indicação para cirurgia, discutimos a cirurgia a ser realizada e faço uma explicação sobre os riscos e benefícios do procedimento. Então o paciente é encaminhado para realização de exames e para avaliação e orientação com nossa esquipe multidisciplinar, que inclui uma nutricionista, psicóloga e endocrinologista. Além disso, todos os pacientes devem passar por uma avaliação com cardiologista. Este processo pode ser rápido, mas caso o paciente tenha algum problema de saúde que precise ser compensado ou necessite perder peso antes da cirurgia, pode demorar um pouco mais. O Saymon passou por todo este processo, fez um preparo adequado e foi submetido à cirurgia no momento oportuno”, esclarece o médico.

Symon lembra o dia da realização da cirurgia. “No momento que fui caminhando pelo corredor rumo ao centro cirúrgico, senti um emaranhado de emoções que não consigo explicar até hoje. Por mais que a gente se prepara para esse momento, não estamos prontos para enfrentar todas as mudanças que nos espera quando acordamos!’.

E quanta mudança! A dieta é totalmente líquida no dia que antecede a cirurgia, com jejum total nas doze horas antes do procedimento. E aí, sim, a mudança. Depois de acordar, mais doze horas de jejum e horas depois a liberação de 20ml de água, isotônico ou água de coco a cada 30 minutos. “Essa foi minha alimentação nos 15 primeiros dias. No décimo sexto dia já comecei a comer três colheres de sobremesa de purê de legumes batido e peneirado. Essa alimentação permaneceu por mais 15 dias”, lembra Saymon. “No dia da cirurgia o paciente fica em jejum, mas já no dia seguinte ele inicia uma dieta líquida até o décimo quinto dia, depois entra a dieta pastosa até completar 30 dias de cirurgia, e somente após este período se inicia a dieta sólida”, completa Dr. Vitor.

NOVOS HÁBITOS

Depois de realizar uma cirurgia bariátrica uma nova rotina alimentar começa. Conforme explica o médico, o paciente não consegue mais comer uma refeição muito grande, de forma rápida e nem tolera mais longos períodos sem se alimentar.

“Alguns pacientes têm intolerância a alimentos muito secos (como arroz, farofa ou peito de frango) ou com muito gás (como refrigerantes e cerveja). Até 30% dos pacientes operados podem ter dumping, que é uma mal-estar logo após o consumo de alimentos muito doces e/ou gordurosos. Outros referem uma mudança no paladar, passam a não gostar mais de alimentos que apreciavam antes e passam a gostar de outros que não gostavam. Mas no geral são mudanças que vão propiciar que o paciente se alimente melhor, com múltiplas e pequenas refeições ao longo do dia ricas em alimentos saudáveis”.

Perguntar a Saymon como ele se sente hoje o leva para uma reflexão. “Não só para mim, mas para quem nunca sofreu com obesidade ou sobrepeso, pois as maiores alegrias de uma pessoa que perde peso são despercebidas por quem nunca passou por isso. Com quase nove meses de cirurgia e 68kg a menos, me sinto literalmente leve”.

CRÍTICAS

Assim que tomou a decisão, Saymon conhecia todos os pontos da cirurgia bariátrica. No caso dele foi realizado o método by-pass, considerada uma cirurgia metabólica, na qual o estômago é diminuído e é feito o desvio do intestino.

“Atualmente existem dois tipos de cirurgia bariátrica. Na cirurgia chamada “sleeve” ou gastrectomia vertical é realizada uma redução do tamanho do estômago, sem nenhuma mudança no intestino. No by-pass gástrico ou gastroplastia em Y de Roux (o caso de Saymon) além da redução do estômago também é realizado um desvio no intestino, o que promove uma má-absorção do alimento”, explica o médico ressaltando que os critérios para que o paciente faça a cirurgia bariátrica são os mesmos para ambos procedimentos, porém a escolha de qual método a ser realizado depende de fatores que devem ser discutidos durante consulta.   

Apesar de o Brasil ser o segundo país que mais realiza cirurgias bariátricas, ainda existe uma certa polêmica quando falamos sobre isso.  “Quem convive com obesidade grau 3, que era o meu caso, está acostumado a lidar com julgamentos e preconceitos diariamente, acredito que isso é resultado da falta de informação, muitos conhecem a cirurgia apenas através do que escutam. O problema é que a gente nunca sabe o que eles escutam!”, lamenta Saymon.

“Já tentou fechar a boca?”, “Faz academia!”, “Conheço uma dieta boa, vou te enviar!”. Essas são frases comumente direcionadas às pessoas que decidem realizar um procedimento cirúrgico para perder peso. “Se as pessoas soubessem o “peso” que as palavras delas tem, acredito que falariam menos, nos que sofremos com a obesidade ficamos calejados de sentir na pele as atitudes de desprezo, palavras de ofensas, tem olhares que dizem muito mais do que uma frase completa, enfrentamos isso diariamente de pessoas que não conhecemos” destaca Saymon.

Na verdade, quem opta pela realização de uma cirurgia bariátrica, encara a última opção e por vezes a questão nem é mais estética e sim sobre saúde. “A mortalidade da cirurgia bariátrica atualmente é equivalente à de uma cirurgia para retirada de vesícula. Outras complicações como sangramentos, fístulas (vazamentos), infecções e embolia pulmonar são, além de raras em centros de referência, passíveis de tratamento e prevenção”, explica Dr. Vitor.

Desta forma, ninguém quer encarar um centro cirúrgico conhecendo os riscos, porém assim fazem quando não conquistam resultados por meio de maneiras mais convencionais. “Meu maior medo era de continuar como eu estava e por motivos relacionados à obesidade não conseguir acordar”, confessa Saymon.

Trabalhando com doces e geleias artesanais, as delícias não são mais tentadoras para Saymon e tentando entender os motivos de pessoas pensarem que a bariátrica é o caminho mais fácil, ele criou o perfil @despesei, no Instagram. “Quando uma pessoa diz que a bariátrica é a forma mais fácil de emagrecer, eu tento entender os motivos dela pensar assim, porque a maioria reproduz pensamentos repetidos, que ouviram dizer em algum lugar, mas não se interessaram em conhecer mais sobre um procedimento tão sério e complexo, tento explicar pra ela mais sobre a cirurgia, na intensão de levar informação e tirar aquela pessoa da ignorância esse também foi um dos motivos que criei o Instagram @despesei, agora, quando percebo que o comentário foi por maldade, apenas ofereço o meu silêncio, não vale a pena entrar na vibração de pessoas com a intensão de magoar as outras”, finaliza.