Corria o ano de 1946! Mais precisamente, o mês de Março.

O clima agradável de outono fazia com que o trabalho na roça fosse menos penoso.

Seu Antonio Navarro, proprietário de uma propriedade rural situada entre Parapuã e Osvaldo Cruz, como sempre, estava na lida, quando notou a existência de um formigueiro em cima de um munduru, palavra que designa um pequeno monte. Começou, então, a escavá-lo à procura da panela do formigueiro. Qual não foi sua surpresa ao se deparar com uma caveira. Assustado, continuou a escavação quando encontrou novas caveiras. Ao todo foram 33 ossadas humanas. Junto a elas, foram encontradas ferramentas agrícolas como machado, enxadas, enxadões, facões e objetos de uso indígena como pontas de flechas, arcos e outros. Até projéteis deflagrados de balas calibre 44 e imagem de José Bonifácio e com a inscrição “Serviço de Proteção ao Índio” estavam no local.

Imediatamente, seu Antonio foi até a cidade comunicar o fato ao suplente de Delegado, senhor Marcelino Francisco Motta, que determinou o recolhimento de todo o material encontrado. Naquele tempo, havia suplente de Delegado e era uma pessoa escolhida dentre os moradores das cidades e que substituía o Delegado, quando este estivesse ausente.

Logo a notícia se espalhou pela cidade e redondezas. Todos queriam ver as ossadas humanas. Até foto foi tirada com as caveiras dispostas lado a lado, aos pés de alguns homens.

Correspondentes de jornais da capital do Estado vieram fazer matérias sobre a descoberta. A notícia do fato percorreu grande parte do território brasileiro.

Todos se perguntavam: o que seriam aquelas caveiras. Seriam de índios Kaingang que habitaram a região? Ou seriam de desbravadores do sertão? As perguntas eram pertinentes, pois muito se falava nas disputas pela posse de terras na região, onde ocorreram muitas mortes.

Por um curto período de tempo, Parapuã foi o centro das atenções regionais.

Dias depois, o Delegado de Parapuã remeteu tudo o que foi encontrado na propriedade do seu Antonio à Secretaria de Segurança Pública que fez o encaminhamento ao Gabinete de Antropologia da Universidade de São Paulo para estudos, por cessão da Cadeira de Etnografia daquela Universidade.  Isso motivou a vinda à Parapuã dos professores assistentes da Cadeira de Etnografia e Língua Tupi-Guarani da USP, Carlos Drumont e J. Philpson.

Depois de muitas pesquisas, foi verificado que se tratava mesmo de um túmulo de índios Kaingang, devido à semelhança com outros túmulos encontrados em outras partes do Estado e da região sul. Também outros mundurus foram encontrados na região.

Isto nos faz remeter ao passado, em meados do século XIX, quando chegaram os primeiros mineiros, liderados por José Theodoro de Souza, ao oeste paulista. Chegaram à Santa Cruz do Rio Pardo.

José Theodoro chegou a ser possuidor de todas as terras da região da Sorocabana, onde fundou várias cidades. Inclusive, o primeiro nome de Martinópolis foi José Theodoro.

Calcula-se que existiam 11.000 índios viviam entre os Rios Tietê e Paranapanema, sendo que os Kaingang eram a maior etnia. José Theodoro foi considerado um cruel matador de índios.

Outro fator de dizimação dos índios na região, foi quando começou a construção da Ferrovia Noroeste do Brasil,  em 1906, na cidade de Bauru. Houve uma reação muito forte dos indígenas.

A partir daí,  houve lutas sangrentas. A empresa construtora da ferrovia contratava brugreiros para matarem os índios. As autoridades governamentais não se envolviam nas disputas, mas as incentivavam, pois os índios eram considerados como um obstáculo ao progresso. A matança só terminou com a criação do Serviço de Proteção ao Índio, em 1910, sob a presidência do Marechal Cândido Rondon, que esteve na região.

A pacificação só aconteceu com a intervenção da índia Vanuíre. Com a pacificação, restaram pouco mais de 500 índios.

Em 1915, foi criado a Aldeia de Icatu, no Município de Braúna. Como várias etnias foram colocadas no mesmo espaço, aconteceram muitas brigas entre eles. Foi preciso se criar a Aldeia “Índia Vanuíre”, em Tupã, hoje, pertencente ao Município de Arco-Íris. Atualmente, nas duas aldeias existem menos de 200 índios.

Na região da Paulista, praticamente, não houve conflitos com os índios, pois os “trabalhos sujos”, isto é, de dizimação indígena foram feitos nas regiões da Sorocabana e da Noroeste. Apesar do aldeamento em Arco-Íris, alguns índios ficaram transitando por aqui até a década de 1920. Depois foram embora para o Mato Grosso, atual, Mato Grosso do Sul.

Por Tadeu Lassen